sábado, 21 de agosto de 2010

Foi por amor

Uma amiga, querida, distante por circunstâncias da vida, me ligou, consternada:

“amiga, querida! Quanto tempo! O que é isso? Me conte o que aconteceu com seu pai. Minha linda, me desculpe, eu não sabia...”

Difícil demais, amiga, de repente, ano passado.

“Me conta como foi, se não te machucar muito? Ele era muito querido.”

Machuca não. Quando conto, pareço estar narrando uma história. Parece não ser comigo.

Ele chegou lá em casa, numa noite depois do Natal.
Estava com frio e suando e disse estar com uma afta na boca.
Eu o abracei e falei, durma aqui essa noite, quentinho, e amanhã vamos ao hospital.
Você o conhecia, ele era teimoso e se achava mais forte que qualquer remédio.
Passou dezembro e no meio de janeiro, ele voltou assustado: “filha, veja o que é isso? Aquela afta estourou.”
Meu Deus, pai! O que é isso? Como você deixou isso ficar assim.
Eu jamais tinha visto uma ferida tão feia, tão maligna.
Por si só, revelava a gravidade.
Ele, mais uma vez, não quis ir ao médico.
Liguei pra minha mãe. Socorro, mãe.
Meu pai está doente e não tem nada que o faça ir ao médico.
Ele disse que vai pra sua casa.
Por favor, leve-o ao hospital.
Mãe, eu já sei o que é. Bastava olhar uma vez.
“Fique calma, minha filha. Vamos pedir a Deus.”
Semana seguinte, o resultado: metástase avançada.
Era meio de janeiro.
Minha vida estava de cabeça pra baixo.
Eu havia recebido um convite especial pra voltar ao Espírito Santo.
Pedi pra pensar.
Conversei com ele.
Sempre muito sensato e pensando em nós em primeiro lugar:
“Déa, minha filha, você sabe que, por mim, você nem teria voltado de lá.
Lá é o seu lugar. Terra boa, de gente que te reconheceu e valorizou.
Sem contar o mar que você ama tanto.
Olha, não sei o que vai acontecer daqui pra frente.
Essa doença, quando aparece, só se fortalece.
Não gosto nem de falar o nome, mas, sei que é assim.
É só jogar a luz nela que ela jamais se apaga.
Então, se eu posso interferir na sua decisão, vá.
Estarei com você o tempo todo.
Como sempre foi.
Lembra quando a gente ia pra praia conversar à toa?”
Parei um minuto.
Chorei.
Vou ver, pai. Vou pensar.
Sua cirurgia está marcada pra março. Quem sabe eu peço pra eles esperarem um pouco e vou depois que você estiver bem?
“Não precisa. Eles te querem agora. Vá ajudar. Vieram te buscar aqui de novo.
Você fez falta e eles confiam em você. Vá sim.”
Marquei minha ida pra 27 de fevereiro, uma sexta-feira.
A cirurgia dele seria dia 10 de março.

Sábado, 28 de fevereiro de 2009.

Em meio a caixas e caixas de mudança, um calor de quase 40 graus em Vila Velha, minha mãe me ligou na hora do almoço: “filha, tudo bem?”
Sim, mãe. Muito calor, a casa ainda está uma bagunça, mas, tudo bem.
E meu pai?
“Ele está bem. Já me ajudou com os pedreiros de manhã, arrumou algumas coisas. Estamos almoçando agora.”
Mande um beijo pra ele. Mais tarde eu ligo pra conversar direito.
Está muito confuso ainda por aqui. Mas, estou feliz. Diga a ele.
“Tá, filha. Ele escutou, deu um sorriso e um suspiro de alívio”.
Caindo a noite, ela ligou de novo.
Chorando muito.
Logo perguntei. Meu pai piorou, mãe, o que foi? Fala!

“Seu pai morreu, filha!”

Você é louca, mãe? Chame o meu pai aí. Eu quero falar com ele.
Chama, chama. Você é louca! Eu quero o meu pai!
Falei que ia ligar de noite pra falar com ele. Chama ele, mãe!

“Filha, eu queria muito chamar, mas, não posso.
Vem logo. Tô te esperando aqui.”

Não me lembro de muita coisa depois.
Junior estava comigo, claro. Com os meus gritos, veio correndo da sala.
Me segurou, colocou no chuveiro e fez o que pôde.
Entramos no carro de volta pra Minas.
Na casa de minha mãe, só quis perguntar: o que aconteceu, mãe?
Como foi isso? E a cirurgia?
E, agora, quem vai me chamar de Déa?

Ela não sabia o que dizer.
Apenas relatou: “almoçamos, falamos com você. Ele subiu e foi deitar.
Estava com dor de cabeça.
Quando foi à tardinha, eu ia à padaria e resolvi chamá-lo pra ir comigo.
Chamei.
Ele não respondeu, filha.”

Um tempo depois, ela contou detalhes do almoço.
Disse: “depois daquela ligação, ele deu um longo suspiro,
como se estivesse tranquilo porque você estava bem e tinha atendido ao pedido dele de fato. Sabe, filha, tenho a impressão de que ele descansou depois disso.
Ele não queria dar trabalho pra vocês. Vocês têm uma vida agitada, muitos compromissos e ele gostava de vê-las assim.
Ele vivia pra vocês e não saberia lidar com o contrário.
Nós sabemos como a cirurgia seria invasiva e sem promessas de recuperação...”

Foi isso, amiga.
Quando me perguntam sobre o que aconteceu com meu pai, eu respondo sempre:
ele morreu por amor.

“Eu sinto muito, amiga”.

Não sinta. Me alivia dividir essa história de amor.
Apesar do nó na garganta, dos olhos marejados, do peito apertado e dessa falta que nada vai preencher.

10 comentários:

Gislaine Fernandes disse...

Nossa Andréa que lindo, sou leitora do blog, sempre sempre venho aqui apreciar sua escrita e hoje me emocionei, chorei , pq tenho um pai tão presente na minha vida e ainda não consigo imaginar a vida sem ele.Não nos acostumamos com a ausência eu sei, mas a presença dele vai ser uma constante na sua vida,em todos os momentos ninguém pode apagar isso de vc.
Sorte
Sucesso
beijos

Um tema, um poema. Um ponto, um conto. disse...

Obrigada pelo carinho, Gislaine! Acho sempre bom você passar por aqui!
Meu pai foi realmente especial e essencial na minha vida. Às vezes, me pego rindo de uma ou outra situação que vivemos juntos. Essa parte ameniza um pouco a ausência. O que mais eu sinto, hoje, é como ele vai ficando longe...

Unknown disse...

Nossa, Déa (agora, com a licença do seu querido pai - nem sabia que só ele te chamava assim),
que texto forte - de amor e dor.
Assim como a Gislaine, não consigo (e nem quero) imaginar essa perda, apesar de chorar lendo o seu texto me colocando em seu lugar.
Enfim, tempo de Deus é tempo de Deus e sempre é o melhor para todos nós - vocês e ele.
É verdade, essa nossa consciência limitada (pela própria condição humana) não nos permite enxergar o projeto todo de Deus, mas que ele é perfeito é.
Só nos resta chorar a dor da saudade, como até Cristo chorou quando esteve nessa nossa pele. Dói mesmo.
E conforte-se com a certeza de que este era o projeto de Deus, perfeito!
Você é um ser iluminado e, com certeza, orgulha seu querido pai, que agora não mais sofre, mas é cuidado por Deus!
Um beijo forte, de conforto e de "pode sempre contar comigo".
Mariana (ex-vizinha)

Alinne Fernandes - www.alinnefernandes.com.br disse...

Quando acontece isso algumas vezes a gente escreve... Pra passar a dor, pra se libertar dela e deixar por dentro só o que ficou de melhor.

Sei bem o que é.

vanessa cony disse...

Sei bem entendre seu sentimento...
Belo texto.Muita sensibilidade.

Unknown disse...

Oi Déa, o que pode haver de melhor do que encontrar um belo texto, cheio de paixão??

Um tema, um poema. Um ponto, um conto. disse...

Obrigada por dividirem esse espaço comigo!
Alê, que bom que você gostou do texto!
Isso é importante pra mim. Demais mesmo.
Viu como tenho sim meus momentos "Balzac"?!!!

Midila Paste disse...

Não tenho nenhuma dúvida que foi por amor... por muito amor!!
Linda história de vida!
Beijos! Amo vc!

Unknown disse...

Adianto aqui um pedacinho do livro que estou te devendo como forma de compartilhar da sua dor:
"Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança para acontecer de novo e não consegue... Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo."

Um abraço quentinho,
Juliana.

Bernadete Moulin disse...

Hei querida,
Entrei no seu blog para uma simples visitinha e me identifiquei com a narração dessa linda história de amor.
Também perdi o meu Pai em circunstâncias parecidas.
Não existe explicação para o inexplicável, afinal, amor não se mede.
Carinhosamente,
Bernadete Moulin